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Gota de luz dourada, ponto ínfimo, esvoaçando junto ás estrelas na imensidão do Universo, de constelações em galaxias, de sonhos em emoções, de fantasias em imaginação ...


Goutte de lumière dorée, point infime, virevoltant avec les étoiles dans l'immensité de l'Univers,de contellations en galaxies, de rêves en émotions, de fantaisies vers l'imagination ...






sábado, 8 de janeiro de 2011

A lenda da Rosa Azul

Rosas azuis - 95x75 - Óleo sobre tela - 2010


No Mosteiro da Cartuxa, no Buçaco, em Portugal, vivia,
em séculos que já se foram,
um piedoso e santo monge, cuja vida se consumia, inteira,
entre a oração e as rosas.
Jardineiro da alma e das flores, passava ele as manhãs de joelho,
no silencio da nave, aos pés de um Cristo crucificado, e as tardes, no pequeno jardim da ordem,
curvado diante das roseiras, que ele proprio plantava e regava.
A sua paciência de jardineiro era absorvida, entretanto,
por uma ideia, que era um sonho:
encontrar a Rosa Azul das lendas do Oriente, de que tivera noticia, uma noite,
ao ler os poemas latinos dos velhos monges medievais.
Para isso, casava ele as sementes, os brotes, fundia os enxertos,
combinando as terras, com que as cobria, e as águas com que regava,
esperando, ansioso, e aparecimento, no topo da haste,
do sonhado botão azul!


Ao fim de setenta anos de experiência e sonhos, em que se lhe misturavam na imaginação as chagas vermelhas de Cristo e as manchas celestes da sua rosa encantada, surgiu , afinal, no coroamento de um galho de roseira,
um botão azul como o céu.
Centenário e curvado, o velhinho não resistiu à emoção, e, conduzido à cela,
ajoelhou-se diante do crucificado, pedindo-lhe, entre soluços pungentes,
que como prémio à santidade da sua vida,
não lhe cerrasse os olhos sem que eles vissem,contentes,
o desabrochar da sua Rosa Azul.

Em volta do santo velhinho, no catre do mosteiro, todos choravam compungidos. E foi então, que, divulgada de boca em boca, foi a noticia ter a um convento das proximidades, onde jazia, orando e sonhando, uma linda infanta de Portugal.
Moça e formosa, e, além de formosa e moça, fidalga e portuguesa,
compreendeu a pequenina freira, no jardim do seu sonho, o valor daquela ilusão, e correu à sua cela, consumindo toda uma noite a fazer,
com os seus dedos de neve,
uma viçosa flor de seda azul que perfumou,ela própria com essência de gerânio.
E no dia seguinte, pela manhã, morria no seu catre,
sorrindo entre as lágrimas de alegria,
por ter nas mãos tremulas, por um milagre do céu,
a sua Rosa Azul!


Humberto de Campos

in "A Serpentr de Bronze"





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